★★★ “Era uma vez em…Hollywood” – mais uma boa história contada por Tarantino

A comédia dramática traz brilhantes atuações de Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie nos papeis principais.

Quando um diretor roteirista se torna tão fenomenal, por conta do sucesso alcançados, é natural que seus fãs já identifiquem seu estilo de produções, o que consequentemente ao ver que determinado filme está sendo lançado sob a direção dele, certamente irá agradar os que o admiram. Mas agora pense: Quentin Tarantino no comando, o que podemos esperar do longa? Além de ação, possivelmente sangue. Foi assim com a franquia “Kiu Bil”, que originou dois filmes, ou puxando para algo mais recente, como “Bastardos Inglórios” – há 10 anos, e para mim, pelo menos, isso significa que faz uma década que ele nos deu um ótimo filme de Quentin Tarantino.

Você sabe a diferença tão bem quanto eu, porque é aquela que você pode sentir em seu coração, intestino, nervos e alma. É a diferença entre um filme de Quentin que tem deslumbramento e brilho e uma série de sequências hipnóticas, e é o trabalho de seu cérebro febril de filmes e um filme de Quentin que entra na corrente sanguínea como uma droga e fica lá, convidativo, que então você assiste de novo e de novo, porquê é uma peça virtuosa da imaginação do primeiro ao último, e cada momento é marcado por uma certa coisa inefável: o tempo.

Em “Era uma vez… em Hollywood”, que estreou na última quinta-feira no Brasil, 15 de agosto, embora por longos períodos (mais da metade), chega a parecer que estamos sendo enganados por achar que conhecemos realmente Tarantino. Chega mais perto do que “Django Livre” ou (Deus sabe) “Os Oito Odiados”. É uma colagem nostálgica de um filme, uma história épica de Hollywood em 1969, que permite que ele se empilhe em todas as suas obsessões, de drive-ins a donuts, de garotas com armas a homens com carros potentes. Nesse caso, ele não precisa se esforçar muito para encontrar espaços para essas fixações, já que Tarantino, nesse conto de duas horas e 39 minutos sobre uma Hollywood presa entre épocas, está voltando à própria origem do fenômeno. Os seus sonhos.

No filme, Tarantino conta a dupla história de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), que estrelou em uma série de TV em preto e branco chamada “Caçador de Recompensas” no final dos anos 50 e início dos anos 60, mas cuja carreira está agora está em baixa; e Cliff Booth (Brad Pitt), o dublê de longa data e melhor amigo de Rick, que se tornou seu motorista. Ambos são simpáticos, bons garotos que são bêbados funcionais (Rick gosta de uísque azedo; Cliff gosta de suas sanguinárias Marys), e eles foram chutados por Hollywood, mas sempre estão de volta.

Cena de “Era uma vez em…Hollywood”. Foto: Copyright 2019 Sony Pictures

Rick, que parece basear-se, pelo menos em parte, Burt Reynolds, é um ator instintivo, um sedutor suave, e uma softie secreta em uma jaqueta de couro – o primeiro herói Tarantino para provar que homens de verdade não chorar. (Quando as lágrimas chegam, é pelo quanto Rick deixou sua carreira derreter.) Cliff, ao contrário, é um veterano de guerra e um brutamontes que mora em um trailer sujo ao lado do Van Nuys Drive-In, mas parece feliz e satisfeito, como a maioria dos personagens de Brad Pitt, dentro de si mesmo. Quando ele se enfezar, ele pode chutar o “pau da barraca”, afinal ele tem uma má reputação. O boato é que ele matou sua esposa e fugiu. (Um flashback de uma cena em um barco com essa mesma esposa, que cava para ele impiedosamente, não derramar as sementes, mas não é exatamente uma evidência de que o boato é falso.)

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio em “Era uma vez em…Hollywood”. Foto: Copyright 2019 Sony Pictures

Os dois primeiros terços de “Era uma vez em…Hollywood” são datados como fevereiro de 1969, e Tarantino vê esses dois personagens com uma humanidade um tanto machista, que é gratificante e não-metálica. DiCaprio e Pitt preenchem seus papéis com essa convicção carismática de estrela de cinema, que ficamos felizes em nos acomodar e ver que o diretor desdobrando esse conto em qualquer direção que ele queira. E ele faz digressão, naquele seguir seu livre arbítrio. Um duelo de carro punhos, enfrenta artes marciais no set de “O Besouro Verde” entre Cliff e Bruce Lee (interpretado a feroz perfeição por Mike Moh)? Por que não! Uma cena com Rick, interpretando um vilão de chapéu preto na nova série “Lancer”, entrando em uma conversa filosófica sobre atuar com sua a pequena atriz de 8 anos, que é uma jovem ativista da Metodista feminista? E quando Cliff, dirigindo ao Cadillac cor creme de Rick, é abordado por uma hippie adolescente em busca de carona, que mora com um cara chamado Charlie no Spahn Movie Ranch, aparenta é uma sensação de mundos colidindo.

Brad Pitt e Mike Moh em ‘Era uma vez em… Hollywood’ Foto: Divulgação

Muitos transformaram o espetáculo de Charles Manson e suas garotas em dramas, mas Tarantino está no caminho ao ver os seguidores do Manson como harpias sinistras que também encarnaram um novo tipo de consciência feminina sexualizada. Ele nos leva mais fundo do que nós estivemos na vida de Sharon Tate (Margot Robbie), que junto com seu marido, Roman Polanski (Rafal Zawierucha), alugou a casa ao lado de Rick em Cielo Drive. Robbie canta os olhos arregalados e levemente tensos de Tate, e se diverte muito em uma cena em que Sharon vai a uma sessão de cinema para assistir a si mesma no filme “The Wrecking Crew”, de Matt Helm, exultante em seu desempenho enquanto ela apoia seus pés nos assentos, para que Quentin – em uma imagem que ele usa como um motivo mais do que nunca – possa estacionar sua câmera na frente deles, como faz um pouco mais tarde com as garotas do Manson.

Em “Era uma vez e… Hollywood, Tarantino recria a Hollywood de 50 anos atrás com uma precisão de máquina do tempo fantasticamente detalhada e quase desmazelada, e não é apenas sobre as marquises e os outdoors. O filme captura como Hollywood, em 1969, era um lugar de cabeça girando em camadas.

Aqui está uma festa da Mansão Playboy onde Steve McQueen (Damian Lewis) está saindo, como você pode esperar que ele seja, mas então é a Mama Cass (Rachel Redleaf). McQueen preenche a história de Sharon, Roman, e seu amigo Jay Sebring (Emile Hirsch), o cabeleireiro que ainda é apaixonado por Sharon – e, de acordo com McQueen, está por aí com eles porque está aguardando seu tempo, esperando Roman para estragar seu casamento. A essa altura, ficamos suficientemente viciados na versão elevada de Hollywood de Tarantino, de que esse triângulo amoroso soa como um pequeno filme de sua autoria.

Sharon Tate (Margot Robbie) em “Era uma vez em…Hollywood”.
Foto: Copyright 2019 Sony Pictures

Rick, no set de “Lancer”, acaba sendo um ator desesperado, mas ótimo. Há uma sensacional sequência estendida de ele interpretar o vilão, esquecendo suas falas, odiando a si mesmo no trailer, depois se recuperando para voltar e fazer uma performance infernal, e é tudo uma prova do extraordinário ator que DiCaprio é. Pitt é tão inspirado. A sequência em que a garota Manson, chamada Gatinha (Margaret Qualley), pede a Cliff para levá-la de volta ao Spahn Movie Ranch, onde ele costumava filmar faroestes, e onde conhece a Família (embora não Charlie, que está apenas no filme por cerca de 30 segundos perdidos), é arrepiante, cheio de suspense e vingativamente gratificante. Tudo o que Cliff quer fazer é dizer olá ao seu antigo colega George Spahn (Bruce Dern). Mas, para fazer isso, ele tem que ameaçar passar por Lynette (Dakota Fanning), que dorme com George para garantir o lugar para o culto do Manson. No final dos anos 60, muitas pessoas passaram pelo Spahn Ranch, e este encontro – embora, é claro, pura ficção – joga com uma plausibilidade assustadora.

Brad Pitt em “Era uma vez em… Hollywood”. Foto: Cena de “Era uma vez em…Hollywood”. Foto: Copyright 2019 Sony Pictures

Rick tem uma oferta na mesa, de um agente astuto (Al Pacino), para se atirar em um faroeste em Roma. A perspectiva o enche de desespero; ele acha que os faroestes italianos são o último degrau do totem de entretenimento. De certo modo, ele está certo, mas ele vai e faz, levando Cliff com ele, e ele passa seis meses lá, fazendo mais alguns filmes; logo volta casado com uma italiana. E é apenas por volta do ponto de seu retorno que o filme, que até agora tem sido uma encantadora jornada de Quentin, começa a seguir em frente com bravura menos arrogante, menos virtuoso. No longa, Tarantino já introduziu um narrador, que ele usa com moderação, mas depois ele começa a usá-lo com mais frequência, quebrando a mística de não falar, e nos perguntamos o porquê. Ele não é o mestre de mostrar?

Cena de “Era uma vez em…Hollywood”. Foto: Copyright 2019 Sony Pictures

Agora é 8 de agosto de 1969, e o resto do filme é dedicado à versão de Quentin Tarantino de como os assassinatos de Manson acontecem, o que eu não revelarei. Eu direi que o que Tarantino faz aqui rima, até certo ponto, com o violento clímax de “Bastardos Inglórios”. No entanto, aquele filme, tanto quanto brincou com a história (que não era mais, realmente, do que qualquer um dos últimos filmes da Segunda Guerra Mundial, de que ele tirou), também era, no sentido mais amplo, fiel à história. Hitler foi destruído e os americanos venceram. O que é, de fato, o que aconteceu. A forma como Tarantino brinca com os assassinatos dos Manson em “Era uma vez em…Hollywood” é ao mesmo tempo mais extrema e mais trivial. E francamente, para este crente Tarantino, isso tornava menos satisfatório.

Você pode dizer, como muitos vão, que é apenas um filme. Mas para grande parte de “Era uma vez em…Hollywood”, Tarantino usa brilhantemente a presença das garotas do Manson para sugerir algo no cosmos de Hollywood que é diabólico em suas más vibrações. E a maneira como o longa resolve tudo isso parece, francamente, muito fácil. 

No final, Tarantino fez algo que é essencialmente Tarantino, mas não se sente nem um pouco revolucionário, pois diferente de grande parte dos filmes dirigidos por ele, esse traz uma melancolia inesperada, mas muito bem-vinda, assim, ele nos conquista.

“Era uma vez em…Hollywood”

Classificação: ★★★ Bom!

Data de lançamento 15 de agosto de 2019 (2h39min)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie mais
Gêneros Drama, Comédia

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