★★★★★ “Entre Facas e Segredos” – Um delicioso mistério que surpreende

Mesmo tendo uma história clichê, o roteiro e a direção de Rian Johnson consegue conquistar e cativar o espectador.

O gênero policial misturado com suspense é uma das coisas mais geniais que pode acontecer dentro de uma obra, seja ela tanto cinematográfica, quanto literária, que aliás, é muito melhor trabalhada, por conta da descrição precisa de cenário, assim como a disposição das pistas ao meio do percurso. Aghata Christie, assim como Artur Conan Doyle são grandes autores, que conseguiam com maestria fazer isso, que escreveram livros que são totalmente atemporais, muito apreciadas pelos amantes do estilo. Porém, não é fácil, achar filmes que consigam, ao menos tentar, recriar algo que seria perfeito em um conto para a tela, dando a impressão que ele deixou de existir.

Em “Entre Facas e Segredos”, o escritor e diretor Rian Johnson mostra que ainda há vida no gênero, prestando uma homenagem agradável à Conan Doyle e Agatha, com um caso incrivelmente complicado contado da maneira mais indireta possível. Fazendo uma pausa entre as sequências de “Guerra nas Estrelas” para derrubar algo um pouco menos distante, longe de seu coração (o que não quer dizer que ele não tenha se colocado na galáxia de George Lucas), Johnson retorna ao gênero que começou tudo isso para ele – como o diretor que traduziu romances de detetives fervorosos para um cenário do ensino médio em sua estreia em 2005, “A Ponta de um Crime” (2005).

O clã familiar Foto: Paris Filmes/Divulgação


Quando um romancista de best-seller é misteriosamente encontrado morto pelo que parece ser a sua própria mão, parece natural presumir que foi “suicídio”, e é de fato a primeira pista num jogo elaborado. Harlan Thrombey (Christopher Plummer) é o único gênio que vive na mansão da família. Seus três herdeiros ostensivos – a elegante Linda (Jamie Lee Curtis), o sério Walt (Michael Shannon) e a viúva Joni (Toni Collette) – e seus vários filhos se reuniram para o 85º aniversário do patriarca, que é bastante festivo até a manhã seguinte, quando Harlan é descoberto com sua garganta cortada.

O 85o aniversário de Harlan Thrombey Foto: Paris Filmes/Divulgação

Agora, cabe à polícia (Lakeith Stanfield e Noah Segan), e a Benoit Blanc (Daniel Craig), um detetive de celebridades, descobrir quem é o responsável. Enquanto os principais suspeitos – o marido de Linda, Richard (Don Johnson), e os três mencionados acima fazem quatro – compartilham sua versão dos eventos, o diretor começa a apresentar flashbacks da noite em questão. Em outros filmes criminais, tais reconstituições são conhecidas por não serem confiáveis, inclinadas a refletir o testemunho quando são ouvidas. Aqui, as vinhetas retratam a verdade, revelando divertidamente as omissões e mentiras na história de cada orador.

Daniel Craig, Lakeith Stanfield e Noah Segan, em “Entre Facas e Segredos”. Foto: Copyright Metropolitan FilmExport

Há muitas reviravoltas em “Entre Facas e Segredos”, mas de longe a mais inesperada é a decisão de Johnson de tratar este quebra-cabeças como uma comédia. Aqui, ele consegue misturar os dois, povoando a casa de Thrombey com esquisitos únicos. O único indivíduo remotamente normal entre eles é a enfermeira de Harlan, Marta (Ana de Armas), a imigrante de olhos inocentes e estômago detector de mentiras (ela vomita ao primeiro sinal de falsidade).

Cena de “Entre Facas e Segredos”. Foto: Paris Filmes/ Divulgação


Tudo isso serve para lembrar o quanto é prazeroso ter casos elaborados e desembaraçados em que o mistério consegue aguçar a cada cena seus espectadores. O cenário pode ser americano, mas há um sabor britânico no processo – o que torna o sotaque de Craig ainda mais peculiar. Tomando um fôlego entre os filmes de James Bond, o ator parece determinado a se divertir, exagerando no personagem, como fez em “Logan Lucky – Roubo em Família” (embora, pelo menos, tenha tido um efeito mais divertido).

Craig é talvez o único cujo desempenho parece ter saído do controle de Johnson. Os outros são encorajados a deixar uma impressão sem deixar tantas marcas de dentes no cenário. E que cenário é esse! A propriedade de Thrombey é o sonho de um diretor de arte, pois o designer de produção David Crank imagina uma mansão que apenas um romancista de mistério poderia criar para si mesmo, cheia de painéis secretos, corredores traseiros e referências abertas ao gênero (como no círculo macabro de punhais e espadas – decoração da biblioteca). 

Benoit Blanc (Daniel Craig) em ‘Entre Facas e Segredos”. Foto: Paris Filmes /Divulgação


Os bestsellers de Thrombey podem ter comprado a mansão, mas seus filhos, seus netos, o genro e as noras são ingratos e parecem estarem dispostos a fazer qualquer coisa para obter uma fatia de seu império editorial. Por outro lado, os detetives podiam contar somente com a ajuda de Marta e a criada, Fran (Edi Patterson), que eram as únicas companheiras fieis do matriarca no mausoléu. 

A luta de classes entre patrões e empregados também aparece no filme, pois a todo momento a enfermeira Marta, do mesmo jeito que é “considerada da família”, eles arrumam maneiras de a intimidarem com seu passado por ter sua mãe como imigrante ilegal no país. A escolha de contar a história em grande parte através da perspectiva de Marta, é muito engenhosa, pois faz com que ela nos ajude a exagerar o quão horríveis são os membros da família. O único que parece remotamente decente é o neto de ovelha negra de Harlan, Ransom (Chris Evans), que aparece tarde e afasta Marta do clã familiar.

Ransom (Chris Evans) em “Entre Facas e Segredos”. Foto: Paris Filmes/ Divulgação

Se ao menos Harlan pudesse ver quão vergonhosamente seus sucessores se comportam quando ele se foi. Ou talvez ele os conhecesse o suficiente para prever exatamente como eles se comportariam… Essa é uma possibilidade sedutora também – e uma com a qual Johnson nos atrai repetidamente enquanto sua narrativa complexa pula os pontos de vista de vários personagens. É interessante que, a todo momento, você chega a pensar que sabe quem foi o responsável, mas, no logo se depara com uma nova possibilidade. Isso chega a ser irritante, porém, delicioso para os amantes do gênero.

“Entre Facas e Segredos” tem um elenco de primeira, que mesmo em alguns aparentam serem figurantes em cena, sustenta o texto, assumindo as caricaturas que tornam a experiência do filme ainda mais divertida.

Se você for um expectador atento as pistas, vai matar logo essa charada. É um filme com poucos defeitos. Faz jus ao gênero. Consegue fazer uma amarra perfeita entre a primeira e última cena, que considerando como o mundo anda, muita gente pode nem reparar ou quiçá entender. Vale muito a pena!

“Entre Facas e Segredos”

Classificação: ★★★★★ Excelente! 

Data de lançamento 12 de dezembro de 2019 (2h 11min)
Direção: Rian Johnson
Elenco: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas mais
Gêneros Policial, Comédia , Drama
Nacionalidade EUA

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